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BALLET DE REPERTÓRIO: DON QUIXOTE

By May 9, 2018Journal

BALLET DE REPERTÓRIO: DON QUIXOTE

 

Dando continuidade à série sobre Ballet de Repertório, eu vou falar hoje sobre o Don Quixote que tive a oportunidade de dançar.  Ninguém tem dúvidas de que a obra de Miguel Cervantes é um clássico da literatura universal e influenciou artistas de diversas áreas. E não foi diferente com a dança.

Em 1860, o coreógrafo francês Marius Petipa encontrou na Rússia espaço para experimentar novas possibilidades técnicas e criativas, contando histórias que misturam o mundo real e o universo da fantasia. A novela espanhola era um prato cheio para as ambições do coreógrafo pelas cenas de ilusão de Don Quixote e o enredo dos enamorados Kitri e Basílio – impedidos de viver seu amor, pois a jovem fora prometida pelo seu pai, Lorenzo, ao rico comerciante Gamache.

O coreógrafo adaptou algumas partes do livro de Cervantes criando uma versão para o Ballet Imperial no Teatro Bolshoi. A montagem estreou em 1869 e os papéis principais foram dançados por Anna Sobeshenskaya, como Kitri e Sergei Sokolov, como Basílio.

Petipa, que conhecia muito bem a Espanha, procurou reviver o espírito do país, criando uma obra forte, cheia de heroísmo e romance, ao mesmo tempo alegre e colorida.  A produção foi um sucesso pelas influências hispânicas com ritmos mais soltos e descontraídos e até hoje é montada por companhias em todo o mundo com pequenas mudanças na coreografia e direção, mas respeitando a música virtuosa de Ludwig Minkus.

Foi o primeiro ballet completo de repertório que eu dancei. Quando a gente fala o primeiro ballet completo de repertório significa que são todos os atos do ballet.  No caso do Don Quixote, são três atos. Eu fazia a Kitri. Estudei muito a personagem, o seu estilo, para realmente caracterizar os passos e os movimentos com a sua personalidade. A Kitri é muito decidida, muito espevitada, com referências espanholas e passos com bastantes trejeitos e detalhes. Um dos pontos altos desta obra é sensualidade dos movimentos, uma característica até então rara no mundo do ballet.

Antes de começar os ensaios de coreografia propriamente dita, eu ensaiei bastante na frente do espelho as caras, as bocas, os olhares como se fosse um teatro mesmo, porque esse tipo de ballet exige do bailarino uma interpretação dramática. Assisti também muitas versões de Don Quixote, com artistas que eu admiro muito para ver qual linha eu ia seguir.  O vídeo que eu mais me inspirei foi da Cynthia Harvey com o Mikhail Baryshnikov.

Depois disso, eu comecei os ensaios dos passos pouco a pouco, ato por ato. Como é muita coreografia, são muitas horas de ballet, a gente vai bem aos poucos para aprender e decorar todos os movimentos. No primeiro ensaio eu achei que eu não ia dar conta, que eu não ia ter fôlego para dançar todos os atos, mas devagar e sempre, eu cheguei lá e deu tudo certo.

Foi uma experiência muito importante montar um clássico como esse, afinal essa obra não é uma prova apenas da genialidade de Cervantes, mas também de Marius Petipa. O coreógrafo mostrou que se pode fazer uma obra extremamente clássica justamente por inovar nos padrões.

Confira trechos de quando dancei o Don Quixote:

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