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BALLET SEM FRONTEIRAS

By January 23, 2018Journal
BALLET SEM FRONTEIRAS

BALLET SEM FRONTEIRAS

Quando tinha 15 anos, a bailarina e professora Fernanda Bianchini foi convidada pela direção do Instituto de Cegos Padre Chico, em São Paulo, para dar aulas às crianças que eram assistidas pela entidade. O convite a pegou de surpresa e, inicialmente, ela pensou em não aceitar, especialmente pela falta de experiência como professora. Foram os pais que a convenceram do contrário. “Eles me disseram ‘filha, nunca diga não para um desafio, pois são sempre desses desafios que partem os maiores ensinamentos que temos nas nossas vidas’”, relembra, em entrevista ao jornal El País.

No primeiro dia de aula, ao ensinar o primeiro passo, o echappé sauté, ela se deparou com a primeira dificuldade. “Pra ficar mais fácil o processo de ensino e aprendizagem, eu disse a elas: imaginem que vocês estão saltando fora de um balde e depois dentro de um balde. Aí, para a minha surpresa, uma aluna levantou a mão e disse ‘tia, mas o que é um balde? Eu nunca vi”, recorda Fernanda.

Naquele momento, ela percebeu que, antes de apresentar o universo do ballet para as alunas, ela precisava adentrar e entender o mundo dos deficientes visuais. Foi com isso em mente que ela desenvolveu uma metodologia própria de ensino de ballet para deficientes. A iniciativa se tornou referência mundial e tem como base o toque e a repetição de movimentos.  Um exemplo: em suas aulas, as alunas tocam o corpo dos professores para entenderem as posições do ballet e os saltos são iniciados com elas deitadas, com as pernas para cima.

Com a proposta de inserir cada vez mais deficientes visuais no mundo do ballet, ela fundou, em 1995, a Associação Fernanda Bianchini – Cia Ballet de Cegos (AFB), a única escola de ballet para pessoas com deficiência visual do mundo. A entidade conta hoje com 350 alunos e tem mais de 100 pessoas na lista de espera. A maioria dos alunos é portadora de deficiência visual completa ou parcial, mas a companhia também trabalha com alunos com deficiência auditiva e intelectual e está desenvolvendo uma metodologia para ministrar aulas de ballet para cadeirantes.

As aulas são gratuitas e, por conta disso, a escola é mantida por doações de empresas e de pessoas que acreditam no projeto e também por palestras ministradas por Fernanda para falar sobre a Associação e sobre o método desenvolvido por ela. Com mais de duas décadas de história, a companhia já se apresentou em palcos brasileiros e de países como Argentina, Alemanha e EUA e participou da cerimônia de encerramento dos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012. Também inspirou o documentário Olhando paras as Estrelas, de Alexandre Peralta, que registra os ensaios, as aulas e o cotidiano de duas bailarinas da companhia.

A exemplo da icônica Alicia Alonso, que, mesmo perdendo a visão, nunca abandonou os palcos, as alunas da companhia são exemplos reais do poder de superação do ballet. Vê-las dançando clássicos do ballet de repertório, como O Quebra-Nozes, Copélia, Dom Quixote e A Bela Adormecida é arrepiante, emocionante e inesquecível. Uma verdadeira lição de vida, bailarinas!

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