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November 2017

O CORPO E O ESPAÇO DO VAZIO

O CORPO E O ESPAÇO DO VAZIO

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O CORPO E O ESPAÇO DO VAZIO  

Hoje eu quero falar com vocês sobre o filme Pendular, segundo longa-metragem da diretora Julia Murat. Eleito pela Federação Internacional de Críticos (Fipresci) como o melhor filme da principal seleção paralela do Festival de Berlim, a Panorama, a produção conta a história de um casal em conflito.

Nenhum dos dois personagens tem nome e são apresentados na película apenas como ELE, um escultor em busca de espaço para suas obras, e ELA, uma bailarina que trabalha o corpo e a utilização do espaço vazio. Morando juntos em um galpão, os dois artistas observam a arte e a sua intimidade se misturarem até não conseguirem mais distinguir uma coisa de outra.

Para tentar demonstrar suas emoções diante da situação, cada um recorre à sua expressão artística. E foi justamente a forma como a dança é utilizada no filme que me chamou a atenção. Tudo acontece de forma orgânica. Ela está lendo um livro e começa a brincar com a cadeira em que está sentada e esse movimento comum e natural, de repente, se transforma em dança.

Essa criação orgânica dos movimentos, a partir de ações do cotidiano e também dos trabalhos criados pelos atores durante os ensaios, tem relação direta com algumas das inspirações do filme – a performance The Other: Rest Energy (1980), da artista sérvia Marina Abramovic, e a coreografia Leaning Duets, da estadunidense Trisha Brown, uma das precursoras da dança pós-moderna.

Com coreografias incríveis, a forma como a historia é contada faz com que o telespectador tenha de construir as personagens no desenrolar da trama. Os métodos escolhidos no longa (como a câmera acompanhando os artistas, seguindo o movimento de seus corpos, dançando junto com os atores) ajudam nessa tarefa de uma forma linda.

A diretora diz que escolheu a escultura e a dança como elementos artísticos do seu filme por acreditar que eles constroem mais sentimentos do que discursos. Fundindo cinema, escultura e dança, Pendular se configura em um filme de poucos diálogos que utiliza do movimento e da interação das personagens entre elas e com o espaço em si para representar os dramas e vivencias inerentes a qualquer ser humano. Super recomendo!

Margot e Rudolf

A SUBLIME PARCERIA DE MARGOT FONTEYN E RUDOLF NUREYEV

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A SUBLIME PARCERIA DE MARGOT FONTEYN E RUDOLF NUREYEV

Uma boa performance no ballet leva em consideração uma série de elementos. A sintonia entre os parceiro é, sem dúvida, uma das mais importantes, capaz de determinar o sucesso ou o fracasso de uma apresentação. Em alguns casos, a química entre os bailarinos é tão intensa e única que atinge o sublime. É o caso da dupla formada por Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev.

Rudolf Nureyev era um bailarino russo que iniciou sua carreira no Ballet Mariinsky, em São Petesburgo, e foi o primeiro artista, durante a Guerra Fria, a dissidir da União Soviética. Considerada a maior Prima Ballerina Assoluta da história, Margot foi uma bailarina inglesa que ingressou no mundo da dança aos quatro anos e fez uma carreira brilhante no Royal Ballet de Londres.

Os dois se conheceram em um evento de gala promovido por Margot. Na ocasião, Nureyev foi convidado a se apresentar e sugeriu dançar Spectre de La Rose com a anfitriã. Ela, no entanto, declinou do convite, por já estar comprometida a dançar no evento com o bailarino John Gilpin e por acreditar que ele era novo demais para dançar com ela (na época, Margot tinha 42 anos e Nureyev, 23 anos).

Mas a excelente performance do russo no evento fez a consagrada bailarina inglesa mudar de ideia e convidá-lo a dançar com ela a temporada seguinte de Giselle, no Royal Ballet. A decisão surpreendeu a muitos não apenas pela diferença de idade entre os dois, mas também porque, naquela altura, todos já esperavam pela aposentadoria de Margot.

A parceria inusitada logo mostrou-se uma decisão mais que acertada tão forte era a química entre os dois no palco. O russo trouxe uma nova energia para a inglesa que, por sua vez, ajudou o bailarino a amadurecer como profissional. Quando perguntado certa vez sobre o sucesso extraordinário dos dois, Rudolf disse: “Não é ela, não sou eu, é o objetivo em comum”. Ao fim de uma apresentação conjunta em O Lago dos Cisnes, ele declarou: “quando ela saiu do palco no seu grande tutu branco, eu a teria seguido até o fim do mundo”. Lindo, né?

O sucesso da dupla foi tamanho que eles, que dividiam o mesmo empresário, cobravam muito mais como dupla do que a soma, já alta, de seus cachês individuais. A parceria sublime durou 18 anos, proporcionou uma experiência valiosa para ambos e nos presenteou com performances arrebatadoras que permanecerão para sempre na história do ballet.

Foto: Zoe Dominic/New York Public Library

Ballet não tem idade

O BALLET É PARA TODOS

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O BALLET É PARA TODOS

A imagem que ilustra este post traz o pintor Pablo Picasso dançando ao lado de Jacqueline Roque, sua segunda esposa e a musa que ele mais retratou em suas obras. O registro foi feito em 1957 pelo fotógrafo David Douglas Duncan. Eu escolhi essa imagem por duas razões: primeiro, porque acho lindíssimo o registro e, segundo, porque ele mostra o quão mágico é o poder da dança.

Eu sempre defendo que o ballet é uma arte para todos e diversas vezes sou questionada se pessoas acima dos 60 anos podem praticar a modalidade. A minha resposta é sempre sim. É necessário apenas fazer algumas adaptações. Eu, inclusive, tenho um grupo de alunas nessa faixa etária que dá um show a cada aula (minhas meninas arrasam!)

As aulas, no geral, são basicamente iguais às do ballet adulto, porém mais leves. Trabalhamos com aquecimento, pliés e tendus, mas focamos, principalmente, em alongamentos e em exercícios que trabalhem o equilíbrio e a força de cada aluno, sempre tendo a barra de apoio como suporte. Assim como nas demais aulas, vamos ampliando os níveis de dificuldade de acordo com a resposta corporal e com o ritmo de cada um. Como toda atividade física, o ballet contribui no fortalecimento das articulações e dos músculos, melhora a postura e o equilíbrio corporal, além de ajudar na sociabilidade e na saúde mental.

Há, no entanto, dois itens importantes que devem ser levados em consideração: antes de iniciar as aulas, é preciso consultar um médico e fazer um check up geral para identificar possíveis lesões, por exemplo; outra questão que inspira cuidados é o uso da sapatilha de ponta, que deve ser permitido apenas sob o acompanhamento de um profissional da dança.

No mais, basta se dedicar e se jogar na beleza que é dançar ballet =)

Crédito da foto: David Douglas Duncan

TRISHA BROWN, A MUSA DA PÓS-MODERNIDADE

TRISHA BROWN, A MUSA DA DANÇA PÓS-MODERNA

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TRISHA BROWN, A MUSA DA DANÇA PÓS-MODERNA

“Eu gosto de conhecer os limites do meu espaço para poder violá-lo”. A frase, dita em 1997 por Trisha Brown, em entrevista ao jornal Los Angeles Times, nos ajuda a entender um pouco do trabalho dessa magnífica bailarina e coreógrafa que ajudou a formar gerações de profissionais.

Considerada um dos maiores nomes do movimento pós-moderno da dança nos EUA, ela defendia que os movimentos deviam ser mais naturais e próximos do cotidiano e desenvolvia coreografias em locais pouco prováveis, como estacionamentos ou coberturas de prédios, por exemplo.

Natural do Texas, ela fez de Nova York (cidade que amo) o grande palco para o desenvolvimento do seu trabalho, a partir da década de 1960, sempre questionador e com viés político. Foi uma das pioneiras a refletir sobre a mistura de dança com artes visuais e performance (juntamente com nomes como Yvonne Rainer e Lucinda Childs)

Em 1970, fundou sua companhia de dança, batizada com seu nome, que, durante anos, desenvolveu projetos que colocaram a dança como um movimento que reflete as questões políticas e sociais do seu tempo. Roof Piece, de 1971, por exemplo, trouxe dançarinos vestidos de vermelho que se apresentavam no topo dos telhados do Soho, em Nova York.

Em 1979, ela apresentou Glacial Decoy, seu primeiro trabalho realizado em um palco tradicional e um dos primeiros a utilizar o silêncio como elemento base. Mas Set and Reset, de 1983, é a coreografia mais marcante criada por ela. Realizado em colaboração com Robert Rauschenberg e Laurie Anderson, o trabalho resultou no grupo de dança Unstable Molecular Cycle, cujas coreografias revolucionárias eram improvisadas e baseadas na memória dos dançarinos.

Apesar do expressivo sucesso de crítica e público, Trisha não gostava de dar entrevistas e preferia falar sobre o seu trabalho e sobre suas ideias através de suas performances. Dançou profissionalmente pela última vez em 2008 em I Love My Robots, espetáculo realizado em parceria com Kenjiro Okazaki e Laurie Anderson.

Em 2011, apresentou sua última criação enquanto coreógrafa, I’m Going to Toss My Arms – If You Catch Then They’re Yours. Morreu neste ano, aos 80 anos, em seu estado natal, e deixou um legado eterno para a dança mundial. Sem dúvida uma grande inspiração pra mim 🙂

Foto: Lois Greenfield