OS PAPÉIS DE GÊNERO NO BALLET

By October 24, 2017Journal
Os papeis de gênero no ballet

OS PAPÉIS DE GÊNERO NO BALLET

No início do mês, o coreógrafo do American Ballet Theatre (ABT) Alexei Ratmansky publicou em sua página no Facebook a foto de uma bailarina erguendo um bailarino sobre sua cabeça (fazendo o porté) com a seguinte afirmação: “desculpe, não há igualdade no ballet: as mulheres dançam na ponta, homens levantam e apoiam as mulheres. As mulheres recebem flores, os homens escoltam as mulheres fora do palco, não o contrário (eu sei que há algumas exceções). E eu estou muito confortável com isso”.

Apesar do meu profundo respeito pelo legado de Ratmansky na dança, eu discordo do posicionamento dele. A meu ver, a arte, de uma maneira geral, precisa dialogar com a contemporaneidade e, em muitos casos, antever mudanças sociais importantes. Vivemos um tempo em que assuntos como feminismo e a discussão sobre o que é gênero estão presentes no cotidiano das pessoas e o ballet, enquanto expressão artística, não pode deixar de posicionar a respeito.

Não à toa, a declaração dele gerou um debate intenso com outros profissionais do universo da dança, rendeu uma matéria na Dance Magazine e trouxe à tona outras importantes reflexões sobre o universo do ballet, como a falta de coreógrafas mulheres, de bailarinos negros e de espetáculos que discutam a questão de gênero e abordem a homoafetividade, por exemplo.

Por que não invertermos os papéis de gênero no ballet de repertório? Alguns poderão dizer que é impossível por se tratarem de obras muito datadas em que as características dos personagens são bastante definidas e quase nada flexíveis. Mas a companhia norte-americana Les Ballets Trockadero de Monte Carlo tem feito um trabalho notável nesse sentido. Ao reencenar clássicos como O Lago dos Cisnes e Dom Quixote tendo apenas homens no elenco interpretando todos os papéis, o grupo vem se destacando pelo humor (sua marca registrada), mas também pela técnica apurada, pela graciosidade dos movimentos e, principalmente, pela proposta inovadora na apresentação.

É válido lembrar que a discussão de gênero no universo da dança não é uma novidade: Eugénie Fiocre, primeira bailarina da Opera de Paris, por exemplo, interpretou o personagem Franz na montagem de Coppélia em 1870. A recepção foi tão positiva que o personagem seguiu sendo interpretado por mulheres até a Segunda Guerra Mundial.

Acredito que Ratmansky tem o direito de não aceitar que bailarinas levantem seus parceiros ou que bailarinos dancem na ponta em suas obras. Ele, enquanto coreógrafo, deve ter a liberdade para se expressar da maneira que achar mais adequada nos projetos em que está à frente. A questão aqui é que ao se posicionar publicamente dessa forma ele limita as possibilidades de criação do ballet e sugere que ninguém deveria experimentar outras formas de apresentação na dança. Felizmente, há muita gente pensando diferente dele 🙂

Na minha opinião, precisamos incluir bailarinos de todas as identidades, raças e gêneros para mostrar que todas as pessoas são bem-vindas na modalidade artística. Mais que isso: devemos exercitar as mais diferentes formas de apresentação, incluindo a inversão dos papéis de gênero. O ballet é uma arte linda, versátil e criativa demais para se limitar.

Foto: Arquivo Mariinsky Theatre

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