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October 2017

QUANDO COMEDIA E AMOR À DANÇA SE ENCONTRAM

QUANDO COMÉDIA E AMOR À DANÇA SE ENCONTRAM

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QUANDO COMÉDIA E AMOR À DANÇA SE ENCONTRAM

Quem é fã de ballet certamente já viu alguma montagem de O Lago dos Cisnes, clássico do ballet de repertório conhecido, entre outras coisas, por ter bem definidos os papéis de gênero desempenhados por seus personagens, com destaque para figuras femininas, como as sílfides e a princesa transformada em cisne. Mas você conseguiria imaginar homens interpretando essas personagens?

Pois é essa a proposta do Les Ballets Trockadero de Monte Carlo, companhia norte-americana composta apenas por homens que, com técnica impecável, representam os grandes clássicos do ballet mundial. Usando sapatilhas de ponta e vestindo tutus, os bailarinos propõem, pelo viés do humor, questionar os papéis de gênero no ballet e oferecer ao público uma nova experiência com o universo da arte. Em cena, os integrantes exageram nos movimentos (todos muito bem calculados, obviamente) e apresentam ao público todos os “clichês” que fazem parte desse universo.

Fundada há mais de 30 anos, a companhia é referência no cenário internacional, bastante respeitada pela crítica especializada e detentora de prêmios como o de Excelência em Dança, no quadro dos Prêmios TMA (Theatrical Management Awards) e o de Repertório Destacado da Associação dos Críticos de Dança de Londres (Dance Critics Award). Ao longo de sua trajetória, o grupo já participou de festivais de dança em cidades como Madri, Montreal, Nova York e Paris e foram temas de dois documentários, além de especiais produzidos por emissoras de TV do Japão, da Alemanha e da França.

Ao colocarem homens interpretando os papéis tradicionalmente femininos (ninfa das águas, princesa romântica e mulher vitoriana, por exemplo), a Les Ballets demonstra na prática o quão belo, diversificado e grandioso é o ballet. Uma bem-sucedida mistura de comédia e amor ao mundo da dança. Super recomendo!

Foto: Roberto Ricci – Parma

Os papeis de gênero no ballet

OS PAPÉIS DE GÊNERO NO BALLET

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OS PAPÉIS DE GÊNERO NO BALLET

No início do mês, o coreógrafo do American Ballet Theatre (ABT) Alexei Ratmansky publicou em sua página no Facebook a foto de uma bailarina erguendo um bailarino sobre sua cabeça (fazendo o porté) com a seguinte afirmação: “desculpe, não há igualdade no ballet: as mulheres dançam na ponta, homens levantam e apoiam as mulheres. As mulheres recebem flores, os homens escoltam as mulheres fora do palco, não o contrário (eu sei que há algumas exceções). E eu estou muito confortável com isso”.

Apesar do meu profundo respeito pelo legado de Ratmansky na dança, eu discordo do posicionamento dele. A meu ver, a arte, de uma maneira geral, precisa dialogar com a contemporaneidade e, em muitos casos, antever mudanças sociais importantes. Vivemos um tempo em que assuntos como feminismo e a discussão sobre o que é gênero estão presentes no cotidiano das pessoas e o ballet, enquanto expressão artística, não pode deixar de posicionar a respeito.

Não à toa, a declaração dele gerou um debate intenso com outros profissionais do universo da dança, rendeu uma matéria na Dance Magazine e trouxe à tona outras importantes reflexões sobre o universo do ballet, como a falta de coreógrafas mulheres, de bailarinos negros e de espetáculos que discutam a questão de gênero e abordem a homoafetividade, por exemplo.

Por que não invertermos os papéis de gênero no ballet de repertório? Alguns poderão dizer que é impossível por se tratarem de obras muito datadas em que as características dos personagens são bastante definidas e quase nada flexíveis. Mas a companhia norte-americana Les Ballets Trockadero de Monte Carlo tem feito um trabalho notável nesse sentido. Ao reencenar clássicos como O Lago dos Cisnes e Dom Quixote tendo apenas homens no elenco interpretando todos os papéis, o grupo vem se destacando pelo humor (sua marca registrada), mas também pela técnica apurada, pela graciosidade dos movimentos e, principalmente, pela proposta inovadora na apresentação.

É válido lembrar que a discussão de gênero no universo da dança não é uma novidade: Eugénie Fiocre, primeira bailarina da Opera de Paris, por exemplo, interpretou o personagem Franz na montagem de Coppélia em 1870. A recepção foi tão positiva que o personagem seguiu sendo interpretado por mulheres até a Segunda Guerra Mundial.

Acredito que Ratmansky tem o direito de não aceitar que bailarinas levantem seus parceiros ou que bailarinos dancem na ponta em suas obras. Ele, enquanto coreógrafo, deve ter a liberdade para se expressar da maneira que achar mais adequada nos projetos em que está à frente. A questão aqui é que ao se posicionar publicamente dessa forma ele limita as possibilidades de criação do ballet e sugere que ninguém deveria experimentar outras formas de apresentação na dança. Felizmente, há muita gente pensando diferente dele 🙂

Na minha opinião, precisamos incluir bailarinos de todas as identidades, raças e gêneros para mostrar que todas as pessoas são bem-vindas na modalidade artística. Mais que isso: devemos exercitar as mais diferentes formas de apresentação, incluindo a inversão dos papéis de gênero. O ballet é uma arte linda, versátil e criativa demais para se limitar.

Foto: Arquivo Mariinsky Theatre

ALICIA ALONSO, A BAILARINA DA SUPERAÇÃO

ALICIA ALONSO, A BAILARINA DA SUPERAÇÃO

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ALICIA ALONSO, A BAILARINA DA SUPERAÇÃO

“Não há vida fora do palco. Sem isso, não vivo”, disse certa vez Alicia Alonso quando questionada sobre sua relação com a dança. Agraciada com o título de Prima Ballerina Assoluta, honraria máxima dentro do universo do ballet, ela é considerada uma lenda viva da dança.

Nascida em Cuba, em 1920, se mudou com a família ainda pequena para a Espanha, quando teve os primeiros contatos com o universo do ballet. Aos 11 anos, retornou à sua terra natal e começou a ministrar aulas de ballet na Sociedade Pró-Arte Musical por incentivo de Nikolai Yavorsky, um militar que era apaixonado por ballet, mas tinha poucos conhecimentos técnicos sobre a dança.

Ainda adolescente, se mudou para os EUA onde se formou na School of American Ballet de Nova York tendo como mestres nomes como Enrico Zanfretta e Fedorova Alexandra.  Iniciou sua vida profissional na Broadway e, posteriormente, passou a integrar o quadro de bailarinos da New York City Ballet.

Aos 20 anos, quando havia começado a atuar como solista no American Ballet Theatre (ABT), teve um deslocamento das retinas de ambos os olhos, passou por uma série de cirurgias e ficou afastada por um ano. Durante esse período, iniciou um tratamento à base de corticóide que lhe fazia ganhar peso e comprometia o seu retorno aos palcos.

Em nome da sua paixão pelo ballet, ela decidiu parar de tomar os remédios, mesmo sabendo das consequências para a sua visão, e, enxergando apenas sombras, ela passou a se apresentar guiada apenas pela iluminação do palco e pela sintonia cênica com os seus parceiros de dança.

Sua perfeição técnica e total entrega no palco colocaram o seu nome em evidência. Em 1943, se tornou a primeira bailarina latino-americana a interpretar a protagonista em Giselle no Metropolitan Opera House, em Nova York. Sua interpretação, por sinal, tornou-se épica e serve até hoje de modelo para outras bailarinas. “Ela não fazia Giselle, ela era Giselle”, disse certa vez o coreógrafo francês Maurice Béjart.

Ao lado do marido, Fernando Alonso, fundou em Cuba, em 1948, sua própria companhia (a Ballet Alicia Alonso) que, a partir de 1959 (ano em que Fidel Castro, grande incentivar da dança, subiu ao poder), se transformou no Ballet Nacional de Cuba (BNC), até hoje considerada uma das mais importantes companhias de ballet do mundo.

Ela, que dançou até os 70 anos, hoje atua na direção artística do BNC. Para criar novas coreografias, ouve as músicas, cria os movimentos, repassa para as assistentes como se contasse um filme e, por meio do som dos movimentos, corrige os bailarinos. Prestes a completar 97 anos, ela não pensa em aposentaria. “Vou viver até os 200 anos”, afirma. “Espero ser lembrada como uma artista honesta com a sua arte e com a sua época e que amou a dança sobre todas as coisas”. E o será, com toda certeza 🙂

Crédito: Jorge Valiente

Giovana Puoli

O MAGNÍFICO TRABALHO CORPORAL DA NDT2

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O MAGNÍFICO TRABALHO CORPORAL DA NDT2

Como eu já adiantei aqui pra vocês em outro post, no início do mês eu tive a oportunidade de assistir à apresentação da Nederlands Dans Theater 2 (NDT2), uma das companhias mais renomadas do mundo. O espetáculo apresentou três coreografias: I New Then, Sad Case e Cacti.

O primeiro número eu achei bem humorado, com bailarinos usando roupas comuns, como saias, blusas soltinhas (básicas) e calças. Um figurino bem alternativo, bem variado e nada programado. Mas, quando eles começam a se movimentar, o resultado é absolutamente incrível! Com uma coreografia diferente e totalmente abstrata, os bailarinos apresentam uma sequência de movimentos que, de repente, se subdivide, com cada um produzindo uma movimentação diferente e igualmente marcante.

A segunda coreografia contou apenas com cinco bailarinos em cena, que apresentaram um trabalho corporal magnífico. O figurino, super marcado, nos permitia ver os desenhos dos corpos e acompanhar em detalhes os movimentos. E é impressionante o que eles fazem com o corpo. A gente consegue ver tanto na primeira, quanto na segunda coreografia, que eles têm uma formação técnica única.

O último número, contudo, é um show à parte e, na minha opinião, fechou a apresentação com chave de ouro. Ao som de música clássica do começo ao fim, os bailarinos se alternam na interpretação de diversos personagens: em alguns momentos são maestros, em outros nadadores, bailarinos ou pessoas comuns. O jogo de luz, a sincronia dos bailarinos, a perfeição dos movimentos, tudo se apresenta de forma harmônica, nada está ali por acaso.

O que eles apresentam no palco é realmente um show de deixar qualquer um de boca aberta. Foi essa a sensação que eu e que outras pessoas, tanto do meio da dança, quanto de fora, também tiveram – a minha mãe, por exemplo, que assistiu comigo ao espetáculo <3

Vale muito a pena ficar de olho para saber quando a NDT2 voltará ao Brasil, porque o trabalho que a companhia faz é bem diferenciado, com uma composição coreográfica cênica e espacial extremamente rebuscada e inesquecível. Eu amei!

Crédito: Foteini Christofilopoulou

A história do ballet de repertório

A HISTÓRIA DO BALLET DE REPERTÓRIO

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A HISTÓRIA DO BALLET DE REPERTÓRIO

Quando pensamos em ballet é comum lembrarmos de obras como O Lago dos Cisnes, Giselle, O Quebra-Nozes, A Bela Adormecida e Dom Quixote, não é mesmo? Além de serem considerados clássicos e estarem no imaginário coletivo mundial, estes espetáculos têm em comum o fato de pertencerem a uma mesma categoria: a do ballet de repertório.

Criado na corte francesa do rei Luís V pelo coreógrafo Jean George Noverre, o ballet de repertório (em francês ballet d’action) revolucionou a modalidade artística, que na época estava perdendo espaço para danças consideradas mais populares.

Noverre eliminou as tradicionais máscaras e perucas e a prática de declamação de poesias (muito comum nos primeiros anos do ballet clássico), dividiu os espetáculos em cenas e atos e investiu na precisão dos movimentos e na interpretação dramática dos bailarinos com o objetivo de contar uma história para o público por meio da dança.

As temáticas também foram alteradas: no lugar de deuses e seres mitológicos, os espetáculos passaram a contar histórias de pessoas comuns, mais próximas da realidade dos moradores da corte. O primeiro ballet de repertório da história, La Fille Mal Gardée (ou A Filha Malcriada), é um exemplo claro dessa mudança de repertório. A obra, encenada pela primeira vez em 1789, conta a história de uma rica viúva que luta para manter sua propriedade e impedir que a filha seja enganada por pessoas interessadas em sua herança.

Apesar de ter sido idealizada no século XVIII, foi no século XIX que essa modalidade do ballet ganhou força, principalmente a partir do Romantismo. Além de se manterem focados na dança acadêmica desenvolvida por Noverre, os espetáculos passaram a contar histórias leves de seres mágicos, como fadas e bruxas, ou inspiradas na visão dos europeus sobre a cultura do Novo Mundo – África, Ásia e Oriente Médio, geralmente tendo os não-europeus como vilões.

La Sylphide é considerada a primeira grande obra neste formato. Apresentado pela primeira vez em 1832 na Ópera de Paris, o espetáculo conta a história de um escocês que se apaixona por uma sílfide, espécie de fada na mitologia grega, e, por conta desse amor, vivencia uma série de desventuras. Além de modernizar a temática, La Sylphide também inovou no figurino ao introduzir os tutus românticos e as sapatilhas de ponta (utilizadas pela protagonista, interpretada pela bailarina Marie Taglioni), elementos que se tornaram grandes símbolos do ballet.

Alguns anos depois, em 1841, é lançado Giselle, um dos mais famosos ballet de repertório, considerado até hoje o ballet mais desafiador para qualquer bailarina e que tem como base histórica o embate entre os mundos físico e o espiritual.

Neste período, o ballet entra em declínio na França, mas encontra espaço para renovar em técnica e criatividade na Rússia.Em 1862, Marius Petipa, primeiro bailarino do Ballet Imperial Russo, cria A Filha do Faraó, uma fantasia com cobras venenosas e múmias que arrebata o coração do público. Sete anos mais tarde, o mesmo Petipa estreia Dom Quixote, baseado na obra do espanhol Miguel de Cervantes, e, em 1877, sua primeira versão de O Lago dos Cisnes, com música de Piotr Tchaikovsky, cuja versão final só seria apresentada ao público em 1895. A parceria entre Petipa e Tchaikovsky ainda renderia outras duas grandes obras do ballet de repertório: A Bela Adormecida, em 1890, e O Quebra-Nozes, em 1892, inspirado na obra The Nutcracker and the Mouse King, de Ernst Theodor Amadeus Hoffman.

Com elementos muito bem definidos – figurino (tules e sapatilhas de ponta), cenários grandiosos, música, divisão dos espetáculos por cenas e atos, corpo de baile (para as coreografias em grupo), solistas (para dar vida aos personagens principais) – e contando histórias que mesclam o mundo real com o universo da fantasia, estas obras sobreviveram à passagem dos anos.

Remontados até os dias de hoje pelas principais companhias de ballet do mundo com as mesmas músicas, coreografias (com adaptações, em alguns casos, sempre informadas ao público) e elementos, estes espetáculos continuam a encantar públicos das mais diversas gerações e representam a mais pura e sublime essência da arte do ballet.