MENINOS NO BALLET

By September 26, 2017Journal

MENINOS NO BALLET

Não é muito comum a gente ver homens fazendo ballet, não é mesmo? Mais difícil ainda é ver meninos dançando desde criança. Eu mesma nunca dei aula para nenhum menino de 3 ou 4 anos, faixa etária na qual as meninas costumam começar a dançar. Há um tempo, no entanto, eu tive uma aluna que vinha para as aulas acompanhada do seu irmãozinho, que ficava do lado de fora da sala olhando interessado.

Certa vez, eu o convidei para entrar e ele prontamente aceitou, gostou e começou a fazer as aulas junto da irmã. Ele nunca se matriculou e fazia as aulas descalço e com a roupinha com a qual vinha de casa mesmo. Mas, embora não fosse nada formalizado, era ótimo ter um menino na turma. Com o tempo, no entanto, ele não apareceu mais e a avó que o levava sempre às aulas me explicou que o pai o havia proibido de continuar dançando.

Essa é uma situação ainda hoje bastante comum. Muitos pais não incentivam seus filhos pequenos a fazerem ballet por acreditarem que a modalidade é apropriada apenas para meninas. Mas nem sempre foi assim. Você sabia que quando o ballet surgiu, lá no século XVI, apenas homens tinham permissão para dançar? O próprio rei da França, Luís XIV, era um grande bailarino e criou a Academia Real de Dança (mais tarde rebatizada de Ópera de Paris). Até o século XVII apenas homens podiam se profissionalizar no ballet e todos os papeis femininos eram encenados por bailarinos travestidos de mulher.

Só a partir de 1681 que as mulheres começaram a fazer parte do mundo do ballet, com a estreia de Mademoiselle Lafontaine nos palcos. Com o passar dos anos, a leveza na execução dos movimentos e a forte expressão corporal necessárias na dança passaram a ser associados exclusivamente à figura da mulher e criaram estereótipos que, por fugirem do conceito de masculinidade em vigor em nossa sociedade, contribuíram para o afastamento dos homens desse universo.

Apesar disso, muitos meninos driblam o preconceito e com 14 e 15 anos começam a fazer aulas de ballet por iniciativa própria – caso dos meus alunos. A maioria deles começa nessa faixa-etária, e, com muita força de vontade e dedicação, conseguem uma evolução técnica muito rápida que me deixa sempre impressionada! Um deles, por exemplo, acima dos 20 anos, começou no ballet há apenas dois anos e hoje já faz aulas com meninas que praticam a modalidade há mais de 10 anos.

É preciso lembrar que muito mais que movimentos precisos e delicados, o ballet é uma expressão artística que exige força, equilíbrio e flexibilidade e, nesse sentido, a figura masculina é tão fundamental quanto a feminina. O que seria do ballet mundial sem as brilhantes parcerias como a da Prima Ballerina Assoluta Margot Fonteyn com o bailarino Rudolf Nureyev? Ou sem o talento dos nossos maravilhosos brasileiros Marcelo Gomes, Thiago Soares e Ismael Ivo? Ou sem o brilhantismo técnico de Mikhail Baryshnikov?

Fico imaginando quantos talentos são desperdiçados por preconceito e falta de oportunidades e conhecimento a todo o momento. É importante revermos essas questões e entender que o ballet é uma arte para todos!

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