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ISMAEL IVO, A DANÇA COMO IDENTIDADE

By August 30, 2017Journal

ISMAEL IVO, A DANÇA COMO IDENTIDADE

Quando falamos em inovação e singularidade na dança contemporânea, é impossível não mencionar o nome de Ismael Ivo. Bailarino e coreógrafo com uma carreira consagrada de mais de 30 anos no exterior, o brasileiro é famoso por ter criado uma linguagem artística única, visceral e inconfundível, que mistura elementos da dança afro com o ballet clássico. “Eu encontrei na dança uma forma de me expressar enquanto pessoa e, principalmente, como um bailarino negro”, afirma.

A paixão de Ismael pelo ballet começou ainda na infância. Natural de São Paulo e morador da periferia, ele costumava tomar de dois a três ônibus para ensaiar no centro da cidade e sonhava um dia integrar o corpo de baile do Teatro Municipal.  “Percebi que não é todo dia que um negro faz o papel do príncipe em “O Lago dos Cisnes”, por isso resolvi criar um repertório próprio”, conta. “Acreditar pra mim é uma obsessão”.

E foi justamente a sua linguagem própria que o fez ganhar o mundo. Primeiro os EUA, a partir de uma bolsa de estudos na companhia de dança do aclamado coreógrafo norte-americano Alvin Ailey, em Nova York, e depois a Europa, onde atuou como bailarino, coreógrafo e gestor de grandes festivais. Na Alemanha, foi diretor do ballet do Teatro Nacional Alemão de Weimar (sendo o primeiro estrangeiro e negro no posto); na Áustria, fundou o “ImPulsTanz”, um dos maiores festivais de dança contemporânea da Europa, e na Itália, atuou por sete anos na direção do Festival Internacional de Dança Contemporânea da Bienal de Veneza.

Em sua trajetória profissional, trabalhou com grandes nomes do ballet mundial, como o coreógrafo tcheco Jiri Kylian, a deusa alemã Pina Bausch (ela chegou a dirigir um solo exclusivo para ele), o norte-americano William Forsythe, grande reformador do ballet clássico, e a brasileira Márcia Haydée, um grande nome do ballet clássico com quem ele fez belíssimos duos.

Neste ano, retornou ao Brasil para um importante desafio: assumir a direção do Balé da Cidade de São Paulo do Theatro Municipal (se tornando o primeiro negro a assumir a posição, em quase 50 anos de história da instituição) e, de quebra, realizar um sonho de infância.

Seu primeiro espetáculo à frente da companhia, “Risco”, explorou lindamente a relação dos bailarinos com grafites, um dos símbolos mais controversos da cidade. Além disso, levou os bailarinos para espaços públicos, como bibliotecas e teatros municipais, no intuito de promover um contato mais direto do público com o universo do ballet. “O Balé da Cidade, para mim, é um laboratório vivo, em que não só se pesquisa – porque a arte é uma pesquisa constante -, mas que depois apresenta uma reflexão, e isso deu para a companhia um novo início”, explica.

Aos 62 anos, com a criação de 75 ballets no currículo e uma bem-sucedida carreira, Ismael segue com a mesma inquietação de quando era um menino da periferia paulistana. “Ainda estou me descobrindo, tendo novas ideias. Revejo uma cidade que também está nesse momento se discutindo, se questionando, uma grande chance pra cultura e pra dança. Uma chance de transformação”, afirma.

Generoso, ele busca estimular os bailarinos a criarem a sua própria linguagem e a utilizarem o ballet como expressão dos seus sentimentos e, dessa forma, promoverem uma troca de emoções com o público. “Criar uma ponte onde as pessoas possam descobrir ou redescobrir coisas dentro delas mesmas. Isso tudo é o que me impulsiona por completo e é aí que a arte se faz: como um documento do tempo. Se permaneço ou me desfaço, não sei. Eu sei que a dança é tudo, tem sangue eterno, asa ritmada e que um dia estarei mudo, mais nada”.

Ismael, querido, você será eterno para nós e para o ballet. Sou fã!

Foto: Christa Niels

 

 

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