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THIAGO SOARES

By August 8, 2017Journal

O primeiro bailarino

Primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres desde 2005, uma das mais tradicionais companhias do mundo, Thiago Soares é um exemplo de força, agilidade e expressividade no ballet mundial. Natural de São Gonçalo, mas criado no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, ele teve o primeiro contato com o universo da dança aos 12 anos. Em suas primeiras aulas de
streetdance chamou a atenção da professora, que vendo nele um grande potencial, o incentivou a fazer ballet clássico.

Talentoso e bastante aplicado, aos 17 anos ele conquistou a Medalha de prata no Concurso Internacional de Dança de Paris e foi convidado a ingressar no corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no qual interpretou os papéis principais em clássicos como “O Quebra-Nozes”, “Don Quixote”, “O Lago dos Cisnes” e também em espetáculos criados especialmente para ele, como o “Tome Valsa”, de Tindaro Silvano.

Em 2001, participou do Concurso Internacional de Ballet do Teatro Bolshoi e, competindo com 270 bailarinos, conquistou a medalha de ouro e foi convidado para fazer parte do quadro de aprendizes do Kirov Ballet, se tornando o segundo estrangeiro (e o único brasileiro até hoje) a alcançar tamanho prestígio ao longo dos cem anos de existência da aclamada companhia – o cubano Manuel Carreño foi o primeiro.

No ano seguinte, ingressou no Royal Ballet de Londres, após passar pelo crivo da exigente Monica Mason, diretora artística da companhia britânica, e em 2005 já integrava o time de primeiros bailarinos. No mesmo ano, recebeu o prêmio de Artista Revelação Masculina de Dança Clássica, o Oscar da categoria, oferecido pelo Critics´Circle. Em sua trajetória no Royal,
interpretou os papeis principais em “Onegin”, “O Lago dos Cisnes”, “Romeu & Julieta”, “Anastácia”, “Coppélia” e nas produções “Les Saisons”, “The Seven Deadly Sins” e “Sweet Violets and Raven Girl”, criadas especialmente para ele.

Em 2012, se apresentou na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, representando o Brasil, e, no ano seguinte, foi premiado com o Special International Press da Embaixada do Brasil em Londres, por sua contribuição às artes. Ano passado, protagonizou com o bailarino e coreógrafo Danilo D’Álma o espetáculo “Roots”, que promoveu um diálogo entre o ballet clássico e a dança de rua. Em 2018, sua linda história de sucesso será contada em uma cinebiografia dirigida por Marcos Schechtman. Um verdadeiro orgulho nacional

Giselle

Thiago esteve em São Paulo este mês, onde dançou o clássico romântico Giselle, com música de Adolphe Adam e libreto de Théophile Gautier e Vernoy de Saint-Georges. E apresenta nessa semana o espetáculo Roots no Paraná. Para o projeto, cuja última apresentação no Brasil foi no início do ano, Thiago combina recursos do balé clássico com a dança contemporânea e o hip hop, fazendo uma espécie de síntese de sua carreira. O bailarino afirma que o espetáculo ainda não chegou a seu destino, pois quer rodar com ele por outras cidades do país e no exterior.

Do palco para as telas

Apesar de ter apenas 36 anos, a trajetória de Thiago Soares será vertida para as telas em dois filmes. Um tratamento ficcional de sua vida, que será dirigido por Marcos Schechtman, está em pré-produção e deve começar a ser filmado no ano que vem. Antes disso, ainda neste semestre, deve estrear Primeiro Bailarino, documentário que Felipe e Alice Braga produziram para a HBO e que mostra a dia-a-dia de Thiago.

A Bravo! bateu um papo com o bailarino, que contou como é sua rotina de trabalho em Londres, adiantou o que apresenta em São Paulo e deu sua opinião sobre a crise na cultura. Leia a seguir:

Você poderia descrever como é o seu dia de ensaios em Londres?

O meu dia, em Londres, começa por volta das oito e meia da manhã, que é o horário que eu acordo, tomo café da manhã, me preparo, tomo um banho e às nove e meia, eu ingresso no teatro. Faço aulas de pilates, um pouco de alongamento (dependendo do dia), até umas dez e meia. Às dez e meia, eu entro na aula de balé e saio às onze e quarenta e cinco. Depois disso, tenho uma pausa de quinze minutos e ao meio dia começo os meus ensaios, que normalmente vão até às cinco da tarde, com uma pausa no meio desse período de quarenta minutos. Onde eu paro, como alguma coisa, respondo e-mails, posto uma foto, falo alguma coisa de trabalho, dou alguma entrevista e sigo. Normalmente, de duas a três vezes por semana, termino às cinco e tenho uma pausa até às sete e meia, quando ou eu tenho um espetáculo ou eu tenho um evento, uma exposição, ou uma palestra, alguma coisa que eu tenha que atender. Esse é basicamente o meu dia a dia e eu geralmente vou dormir por volta de meia noite e meia/uma hora da manhã.

Para a produção do documentário, você foi acompanhado por uma equipe? Como foi essa experiência?

A produção do Los Bragas e da HBO me acompanharam pelo período inteiro do documentário. No começo foi um pouco estranho, porque eu ainda estava me adaptando a essa coisa de andar com câmeras e fios atrás de você. Às vezes pode até ser um pouco desconfortável, mas o Felipe Braga, que é o diretor do filme, é uma pessoa tão querida e tão artístico que ele entendia que quanto menos eu percebesse que eles estavam ali, melhor. Rapidamente a nossa confiança foi estabelecida e eu parei de perceber que eles estavam ali. Virou um processo bastante prazeroso.

O que você e Amanda Gomes estão preparando para apresentar no Brasil? Como estabeleceram essa parceria?

A Amanda Gomes, ela é uma brasileira que vem de uma história de luta também. Ela é uma menina que eu vi pequena e hoje se tornou uma bailarina profissional, uma bailarina que representa o balé do Kasan, muito estabelecida e agora está se estabelecendo também na Europa, na América, através das redes sociais. Essa geração de hoje vive essa coisa da interação através das redes sociais, então os prêmios e as vitórias dela, mesmo que sejam na Rússia, distante, a gente também faz parte, porque a gente vê de imediato e eu estou muito feliz de depois de tantos anos, uma brasileira ir lá e conseguir uma segunda medalha de prata pra gente. É uma coisa pra gente se sentir honrado.

Eu sei o que isso representa, porque eu, em 2001, ganhei a nossa primeira medalha de ouro e eu vivi o que ela está vivendo e eu sei o quão crucial isso é para a carreira de alguém. Eu sempre tive o desejo de quem sabe a gente poder se encontrar e dançar e fazer alguma coisa, então a convidei antes da competição do Bolshoi, na verdade. Quando a convidei ela estava no processo de ir para o concurso, então foi maravilhoso, porque ela ganhou e a gente já estava agendado para dançar juntos, então eu achei que seria um motivo de celebração. A gente até agora só se falou por Skype, telefone, Facetime e nós temos uma admiração mútua e eu tenho certeza que vamos nos divertir muito no espetáculo Giselle, em São Paulo.

Você diz que o espetáculo Roots ainda não chegou a seu destino. Sente que ele ainda está em processo de formulação?

Ele ainda não passou por todas as cidades que a gente tem vontade de passar. Ele é um espetáculo que é muito peculiar. Ele não é visado em fazer dinheiro e rodar desesperadamente. O motivo pelo qual nós sentamos e resolvemos fazer esse espetáculo foi um motivo extremamente artístico. Era um espetáculo com o qual a gente queria dizer algo, ele tinha essa mensagem: do Thiago no passado, do Thiago hoje e essa parceria de dois homens no palco também, essa comunicação masculina era essa a história.

Eu queria um veículo para homens e um veículo que falasse da minha trajetória. E trabalhar com o Ugo Alexandre, que foi o meu mentor e a pessoa com quem comecei a dançar, e eventualmente o Renatinho Cruz também veio e fizemos um time incrível. Um projeto extremamente artístico que, óbvio, envolve alguns gastos com viagens, enfim, uma série de coisas que qualquer espetáculo que está em cartaz precisa para poder funcionar, mas o foco dele não era isso. O foco dele era: vamos procurar o teatro certo pra fazer? Com o produtor certo, no momento certo? Como que a gente está se sentindo de corpo? Vamos fazer agora?

Então é um espetáculo que é programado assim, de acordo com o que a gente sente de fazer, com o intuito puramente artístico, puramente sendo artístico nessa decisão. Eu tenho ciência de que isso é um luxo, mas eu trabalhei muito pra estar no momento em que estou e eu queria realmente acertar com o Roots, então eu sei que eu precisava fazer esse sistema para fazer com que o show funcionasse. A gente quer levar pra fora do Brasil, a gente também quer rodar ainda algumas cidades no Brasil que ainda não fomos e ano que vem temos perspectivas de levar para fora do Brasil. Esse, eventualmente, será o destino de satisfação do Roots, passar por lugares em que a gente ainda não passou.

Vários equipamentos de cultura têm sofrido cortes e demissões no Brasil. Com a dança não é diferente. Na sua opinião, qual lugar ocupa a dança na cultura brasileira atualmente? Há pouco investimento e formação?

Acho que no Brasil a cultura ainda não é vista como prioridade, assim como a educação e a saúde. A cultura, as artes não podem virar um veículo de esquemas e de exploração aos editais, leis de incentivo e ao governo. Em um momento de crise, o painel que toma as decisões de destino de verbas à cultura deve agir com muita sabedoria, tentando manter vivo o seguimento dos projetos. Mas sabendo e lembrando que estamos passando um momento de séria crise.

A dança no Brasil evoluiu muito. Temos grandes talentos e coreógrafos que poderiam transitar no circuito internacional mas, por falta de apoio contínuo e direção, que é fundamental, não conseguem alcançar sua capacidade máxima. Por exemplo, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que é a casa teatral mais importante do país, está sofrendo muito. Óbvio que nossa crise é grande e abrange vários corpos do Estado fundamentais, mas nesse caso é indigno que um ponto de referência da cultura do país não tenha tido um plano de sobrevivência ou uma estratégia de manter seus corpos artísticos e funcionários em tempos de crise.

A crise é grande e a cultura é uma parte dela. Mas o papel de um teatro como o Municipal nesse momento é fundamental em continuar educando, ensinando e atraindo a população com suas obras, óperas, balés e concertos. A arte muda vidas, nos suaviza e nos faz melhores seres humanos.

Sua trajetória — a de um jovem de São Gonçalo que se torna primeiro bailarino do Royal Ballet — tem algo de fabular, próxima das que se contam em palcos ao redor do mundo. Ela, no entanto, parece ser uma exceção no país. O que falta para que mais bailarinos tenham a mesma oportunidade?

Acho que minha história é sobre alguém que quis com todas as forças vencer com seu talento e que teve excelentes professores. E acho que com mais apoio contínuo para a arte e com bons guias, poderíamos gerar muito mais histórias, porque talentos não podemos questionar que temos para dar e vender no Brasil.

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Foto: Andrej Uspensky

Texto original na íntegra no site da Revista Bravo

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